O Patrono do CELD nasceu na França, em 1º de
Janeiro de 1846, numa localidade chamada Foug, na região da Alsácia Lorena,
iniciando uma vida exemplar, na qual desde a mais tenra infância conheceu as
dificuldades materiais, o trabalho árduo, mas também coisas belas, as quais
soube apreciar e valorizar: o aconchego familiar, as belezas naturais e os
tesouros da civilização de seu país, as maravilhosas revelações contidas nos
livros que, embora de difícil acesso para o jovem operário, lhe traziam
conhecimentos que o deslumbravam e lhe proporcionavam "viagens" pelo
mundo, pelos espaços infinitos, pelas riquezas inestimáveis do pensamento
humano.
Aos 18 anos, conheceu "O Livro dos
Espíritos", de Allan Kardec. Pouco tempo depois, assistiu a uma
conferência proferida pelo codificador da Doutrina Espírita em Tours, cidade na
qual viveu, dos 16 anos até o fim de sua vida. Ali, de pé no jardim onde se
realizou a conferência, sob a luz das estrelas, Denis bebeu as palavras de
Kardec, que falava sobre a obsessão... e, desde então, entregou-se com todas as
potências de sua alma, à causa do estudo e da divulgação da Doutrina Espírita.
E é nesse espírito de total entrega que ele
atravessa, imperturbável, todas as tormentas da existência: guerras (inclusive
a Primeira Guerra Mundial), cegueira, críticas, perda de entes queridos, etc,
sempre firme em seu posto, escrevendo livros (ver bibliografia abaixo) e
artigos, fazendo palestras, presidindo Congressos, sempre esclarecendo,
consolando, animando. "Sempre para o mais alto!" É o lema que seu
guia espiritual Jerônimo de Praga lhe dá para pautar a sua vida. É o exemplo
que colhe da vida de sua amada "sorella", a heroína Joanna d'Arc. É o
lema que ele nos dá a todos. Sua vida absolutamente coerente com a sua obra lhe
vale o título de "Apóstolo do Espiritismo".
A hora de partir para o plano espiritual, de onde
continua sua missão, vem encontrar o trabalhador, já ancião, com 81 anos, em
plena atividade. Apressa-se em concluir o livro "O Gênio Céltico e o Mundo
invisível", para entregá-lo a seus editores. Não chegaria a vê-lo
publicado.
Dita para a sua secretária, Claire Baumard, o
prefácio prometido a Henri Sauce, que irá publicar uma biografia de Kardec. Que
trabalho seria mais digno de encerrar a carreira de Denis?
Manhã chuvosa de 12 de abril de 1927... No quarto
de Denis amigos fiéis acompanham seus últimos instantes. Gaston Luce e sua
esposa estão entre eles. "Mademoiselle" Baumard tem nas suas as mãos
do agonizante, que não cessa de lhe dar recomendações... Pelo futuro da
Doutrina Espírita. "Chamado ao espaço", Denis parte, vitorioso, e, de
lá, continua nos esclarecendo, consolando e animando: "Homem! Meu irmão!
Vamos para o mais alto! Mais alto!.
Um pouco mais de Léon Denis
Mais
de uma geração de espíritas, notadamente no Brasil, formou sua base de
cultura doutrinária em grande parte nos livros de Léon Denis, como nos
de Gabriel Delanne, outro notável discípulo de Allan Kardec. Conhecemos
velhos companheiros - conferencistas, jornalistas, doutrinadores e
oradores espíritas - que tiveram esse começo e muito fizeram pela
divulgação da Doutrina. Léon Denis fez muitos discípulos entre nós, mas
entre os elementos da chamada ?velha guarda?, pois não é tão conhecido
no seio da atual geração, cujo ingresso na seara espírita se deve a
outras motivações. Mas a obra de Léon Denis - é bom frisar - não é uma
relíquia, dessas que ficam no santuário da devoção como peças
intocáveis, porque falam apenas do passado. Muito pelo contrário, as
idéias de Léon Denis estão muito vivas, pois não se apagaram com o
tempo. São idéias que ainda podem servir de orientação em qualquer dos
ângulos de compreensão do Espiritismo, o que equivale dizer tanto na
parte experimental, como na inquirição filosófica e nas suas
conseqüências morais.
Há
quem admire Léon Denis apenas como escritor, e é uma faceta que bem o
distingue, mas também há quem veja nele simplesmente o moralista, tanto
quanto não falte quem se impressione ainda mais com o seu pensamento
filosófico. Enfim, a obra de Denis é uma síntese em que se encontram e
combinam muito bem vários aspectos. O escritor que ele é, e dos mais
límpidos, se entrelaça com o homem de alta especulação filosófica e, ao
mesmo tempo, com o inconfundível defensor dos valores morais. Homem de
pensamento e homem de sentimento: a sede de saber e o amor ao próximo,
eis as linhas mestras de sua personalidade.
Por
isso mesmo, e porque nos parece, em determinados pontos, tão atual nos
dias de hoje como o fora em seu tempo, a comemoração do cinqüentenário
de sua passagem para o outro plano da vida deveria ser assinalada não
apenas com os discursos e as conferências que certamente, ou
necessariamente, figurarão nos programas, mas de outro modo, ainda mais
relevante: a organização de estudos especiais de sua obra, através de
cursos. Muita gente, em nosso meio, conhece Léon Denis apenas por
citações, mas ainda não tomou conhecimento de sua verdadeira linha de
pensamento. Poucos, na realidade, poderiam falar, por exemplo, sobre as
preocupações sociais de Léon Denis. No entanto foi um de seus temas
constantes.
Francês
de nascimento e de educação, homem da classe média, Léon Denis viu e
sentiu o drama da França logo em seguida à I Guerra Mundial. Justamente
por ter participado desse drama social, nele envolvido pela força das
circunstâncias, Léon Denis pensou muito nos destinos da França e da
Humanidade, não apenas em termos político-econômicos, seara dos
estadistas, mas em termos de recuperação moral, que muito têm que ver
com a Doutrina Espírita. Vemos em Léon Denis, agora, não mais o escritor
brilhante, mas o pensador, o lúcido e grave humanista preocupado com a
dor geral, ao contemplar as ruínas da guerra. Realmente, como a história
bem o demonstra, a recuperação material depende da capacidade dos
administradores e do fator tempo, mas a reconstrução moral é muito
trabalhosa e penosa, pois a violência e o sofrimento levam os homens, em
grande parte, à desorientação e à neurose, enfraquecidos
espiritualmente, sem qualquer resídio de crença nos valores espirituais.
É uma fenda sensível e perigosa, que se abre no organismo social,
depois de uma guerra ou de uma calamidade, permitindo a decadência moral
em larga escala. Muitos homens de crença se desorientam, não resistem
às repercurssões morais e emocionais dos conflitos sangrentos mas nem
todos, felizmente, se deixam naufragar na desordem. Léon Denis viu e
viveu os sofrimentos de seu povo, sentiu as aflições da humanidade, mas
não se desviou de sua filosofia de vida. Na pujança das energias e da
palavra, como no crepúsculo da existência física, já na velhice que
descambava para o fim do ciclo terreno, foi sempre o mesmo homem
convicto. Vale a pena transcrever as seguintes palavras de seu
?Testamento moral?, na obra de Gaston Luce, que o chama, com inteira
propriedade, o apóstolo do Espiritismo:
"Consagrai
esta existência ao serviço de uma grande causa, o Espiritismo ou
Espiritualismo Moderno, que será certamente a Religião do futuro...
Nesta
hora, minha alma entra em recolhimento e se liberta antecipadamente das
ligações terrestres; vê e compreende a finalidade da vida."
Bela
e profunda filosofia - o Espiritismo - que abre a visão do futuro até
mesmo no ocaso da vida terrena, quando muita gente pensa que tudo é
sombra e tudo se apaga! Assim, filosofando com sabedoria, Léon Denis
fechou o ciclo de sua experiência terrena em 1927.
Deolindo Amorim
N.R. - Este artigo foi originalmente e publicado na revista O Médium (1/77)
Jornal Espírita-Abril de 1977
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